Sua profissão é ser um aventureiro

Bozoka

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O escritor brasileiro Fernando Sabino disse, em uma de suas obras, que o menino é o pai do homem. Esta é uma frase apropriada para apresentar o motociclista cearense Francisco José Cavalcante, conhecido como Bozoka. A paixão pelas motos vem do berço, assim como o apelido, dado pelo pai quando ele tinha apenas 9 meses. “Ele disse que eu fazia um som parecido com essa palavra, e passou a me chamar assim”, lembra.

A relação com o motociclismo, lembra o piloto, começou quando, nos primeiros anos de vida, morava na avenida Bezerra de Menezes e via uma moto prata que passava todo dia mais ou menos no mesmo horário. “Eu achava o máximo”, diz ele, que já pensava nas viagens que poderia fazer a bordo de um veículo de duas rodas.

Dessa paixão de infância e do menino que sonhava com viagens, veio o Bozoka que hoje é um motociclista profissional e tem em seu currículo nada menos que a travessia de todo o território que compreende as Américas e a Antártica – um total de aproximadamente 21 mil km. Esta gigantesca “aventura”, que começou em 1993, terminou com o último trecho percorrido no primeiro semestre deste ano, entre o extremo norte do Estados Unidos, no estado do Alasca, até a cidade de San Francisco, na Califórnia. “Sou o único piloto de moto do mundo que fez este trajeto do Polo Norte ao Polo Sul pelas Américas”, garante.

A palavra “aventura” foi colocada propositalmente entre aspas, porque basta uma conversa com Bozoka para perceber que todas as suas viagens passam longe disso. São resultado de um longo processo de estudos e preparação, que envolve alimentação balanceada, preparo físico, obtenção de documentos, reservas em hoteis e pousadas (ou, dependendo da estrutura da cidade visitada, qualquer outro tipo de lugar onde seja possível passar a noite e descansar) e revisão da motocicleta, entre outros cuidados.

“As pessoas geralmente pensam que o mais difícil é pilotar a moto. Mas essa é a parte mais fácil. Difícil, mesmo, é garantir o patrocínio e a logística da viagem”, revela o piloto. Ele também lembra que, na condução do veículo, a concentração é total. “Ou você presta atenção na paisagem, ou na estrada”, diz.

Claro que isso não impede de curtir a beleza dos locais e ter contato com diferentes culturas. Adepto de uma dieta que exclui carne vermelha e aves, Bozoka lembra que chamou sua atenção, no estado norte-americano do Alasca, a quantidade de animais empalhados que via nos lugares, entre ursos, lobos, bisões (uma raça de búfalo de grande porte) e alces, entre outros.

Além disso, não era incomum encontrar, nos balcões e mesas, um rifle ou outra arma de fogo. “Você via que não era para uso contra outras pessoas. A questão é que lá é possível dar de cara com um urso ou um lobo ao sair de casa”, afirma. Outro fato curioso descrito por ele foi um presente bastante inusitado que ganhou em uma das cidades por onde passou. “Era um spray, parecido com um pequeno extintor, com repelente para ursos, para usar na estrada”, lembra o piloto (veja foto abaixo).

Sua profissão é ser um aventureiro

Em viagens anteriores, quando passou pela América Central, ele recorda outros perigos. “Fui abordado pelas forças de segurança na estrada com as armas já apontadas para mim, porque na época alguns países estavam em guerra civil”. E hoje, segundo ele, o maior problema para viajantes está no México. “O país está tomado por carteis, e sei de casos de roubos de motos e até de assassinatos de pilotos”.

 

Rotina rigorosa e equipamentos de segurança

Diante de tantos riscos, Bozoka afirma que suas viagens têm uma programação pré-definida e seguida com bastante disciplina. “A primeira regra é viajar três dias e reservar o quarto para descansar o corpo”, explica. Outros cuidados são nunca viajar à noite e se alimentar de forma regular apenas no café da manhã e no jantar, repondo as energias na hora do almoço com barras de proteínas e outros nutrientes calculados por um nutricionista, para não perder muito tempo.

O kit inclui ainda equipamento de GPS, celular com bluetooth, barraca, mosquiteiro para o rosto, saco de dormir, toalha impermeável, travesseiro inflável, faca, anzol, apito, filtro ultra-potente (capaz de purificar até água com vibrião colérico), capacete de última geração (com revestimento acústico, antifungo e viseira capaz de isolar vento, calor e água), um colete que protege ombros, tórax e coluna, botas especiais que impedem a torção do pé e três tipos de luvas: uma para frio extremo, uma para o calor e outra para climas intermediários.

Para a moto, os equipamentos incluem ferramentas, peças sobressalentes, gel anti-furo e um produto chamado fix-a-flat, capaz de encher um pneu furado e segurar o ar por algum tempo até que o veículo possa ser levado a um borracheiro.

 

Patrocínio e muito planejamento

Para se ter ideia de como é difícil fazer uma viagem como as que Bozoka tem realizado, o último trajeto teve um custo total de aproximadamente 60 mil reais. Por isso, ele destaca a importância dos apoiadores, fazendo uma analogia com a luta dos navegantes ibéricos. “Exploradores como Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral e Vicente Pinzón tinham o sonho de percorrer o mundo, mas sem a ajuda dos reis e nobres eles não poderiam realizar”, diz o piloto.

Por isso, a única viagem que ele fez com recursos próprios foi a primeira. Desde então, tem conseguido apoio, seja através do fornecimento das motos por revendedores e fabricantes ou de ajuda de custo. Nesta última expedição, o principal patrocinador foi o grupo cearense de autopeças Padre Cícero.

Brincando que agora está sofrendo de “depressão pós-parto”, por ter terminado a última viagem, Bozoka já está em busca de patrocínio para a nova empreitada: subir o Monte Everest, no Himalaia, até o acampamento base, que fica a mais de 5 mil metros da altura. “Vou começar a preparação física ainda este ano”, promete.

Todo o rigor com o planejamento fez com que o piloto tenha boas estatísticas em suas viagens. Contabiliza apenas um acidente sem gravidade, nenhuma falha mecânica nas motos e apenas um furo de pneu. Também nunca foi impedido de viajar por fenômenos da natureza como chuva, neve ou deslizamentos de terra. “Considero, também, um fator divino. Acredito que Deus tem me protegido durante todas as expedições”, afirma.

 

Curiosidades sobre Bozoka

– Prefere fazer as expedições sozinho, para poder tomar as decisões e definir as prioridades de forma mais independente

– Em Fortaleza, seu veículo diário é um automóvel. Segundo ele, a capital cearense não oferece segurança para condutores de motos

– Além de não comer carne vermelha nem aves, o piloto não bebe nem fuma

– Quando vai viajar a lazer, prefere ir de avião. Nunca fez uma grande viagem de moto com amigos, embora não descarte a possibilidade. “Mas seria completamente diferente das expedições, que são meu trabalho”, explica

 

Expedições realizadas (as distâncias são estimativas)

Ano: 1993

Trajeto: San Francisco (Estados Unidos a Fortaleza)

Distância percorrida: 9.700 km

Moto: Honda Transalp 600

 

Ano: 2000

Trajeto: Fortaleza a Machu Picchu (Peru) – ida e volta

Distância percorrida: 13 mil km

Moto: Honda Falcon 400

 

Ano: 2005

Trajeto: Oiapoque a Chuí

Distância percorrida: 4.180 km

Moto: Sundown Max 125

 

Ano: 2006

Trajeto: Fortaleza a Antártica

Distância percorrida: 9.600 km

Moto: Traxx 125

 

Ano: 2011

Trajeto: Estrada do gelo no Canadá

Moto: Bombardier

 

Ano: 2018

Trajeto: Alaska a San francisco

Distância percorrida: 4.900 km

Moto: Kawasaki KLR 650

 

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