Porque a vida das mulheres no trânsito não é nada fácil

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Sair no carro e lidar com a falta de cordialidade e educação de muitas pessoas no trânsito cotidiano ou enfrentar as ameaças de flanelinhas e limpadores de para-brisa que ficam nos sinais dos grandes centros urbanos. Qualquer pessoa no Brasil sabe que essas são tarefas estressantes e fazem até repensar, em alguns casos, se vale a pena deixar o conforto de casa para dirigir nas ruas.

No entanto, se essa pessoa é uma mulher, as situações descritas acima ganham um contorno mais dramático porque, além da violência que acomete todos nós, elas precisam encarar uma série de incômodos que se manifestam apenas por serem do seu gênero. Preconceito, tratamento rude, assédio e intimidação são alguns dos problemas cotidianos das mulheres no trânsito.

Auto Blog Ceará procurou quatro mulheres que estão, com frequência, presentes no trânsito ou conduzindo veículos para saber mais detalhes sobre sua rotina e de como o simples fato de ser do sexo feminino implica em tratamento diferenciado. Foram entrevistadas duas motoristas de carros de passeio, uma pilota e uma ciclista. Veja depoimento de três delas:

Para a estudante Danna de Paula, que dirige todo dia, a primeira diferença no tratamento às mulheres no trânsito é em relação ao comportamento dos mecânicos, nas oficinas. “Quando o carro apresenta defeito, eles não explicam direito, porque acham que você não vai entender por ser mulher”, afirma Danna, que guia carros há cerca de 12 anos.

Ela também lembra episódios de tratamento “diferenciado” que a fazem se precaver diante da sua condição de mulher. “Uma vez me envolvi em uma batida. No outro carro estavam três caras. Todos desceram e eu tive que chamar amigos homens para ajudar na situação”, diz, acrescentando: “Cheguei a temer pela minha integridade física, porque era de noite e eles estavam agressivos”.

Outra motorista urbana assídua que revela um fato no mínimo curioso relacionado ao comportamento dos homens, em relação às mulheres no trânsito, é a empresária Carol Matheus. Ela não lembra de ter sofrido preconceito direto no dia-a-dia, como comentários sobre eventuais barbeiragens – pelo contrário, ouve elogios com frequência por dirigir bem. “Mas eu vejo que eles comentam porque ficam surpresos pelo fato de verem uma mulher ser boa motorista”, diz.

Em relação ao medo, seu maior problema é com flanelinhas e limpadores de vidros. São os casos em que ela diz se sentir mais insegura e intimidada como mulher. “Os limpadores já chegam jogando a água no carro. Quando digo que não quero, percebo que ficam olhando para dentro, como se estivessem medindo. E os flanelinhas, é pela  forma como chegam, a linguagem corporal deles, mesmo”.

Mulheres no trânsito e nas competições automobilísticas

Se a rotina é complicada para mulheres no trânsito urbano, onde a presença feminina há anos é uma constante, no caso das competições automobilísticas, onde elas são mais raras, o desafio é ainda maior. A piloto de UTV (a sigla vem de Utility Vehicle, um veículo ultracompacto com capacidade para andar em vários tipos de terreno) Roberlena Moraes afirma que teve de enfrentar muitas dificuldades para conquistar o respeito dos homens.

Ela conta que, incentivada pelo marido, começou a atuar como navegadora (componente da equipe que fica no carro auxiliando o piloto em campeonatos off road), em meados da década de 1990, e teve de lidar com comentários masculinos preconceituosos. “Em uma competição, escutei de uma equipe de ponta que eles não aceitariam andar atrás de uma mulher, e que se eu errasse iam passar por cima. Acabei em terceiro, e tive o respeito deles. Mas eu era a única mulher na categoria, então no começo foi bem difícil”, lembra.

Para Roberlena, a diferença de força física entre homens e mulheres é um dos principais desafios a superar nas competições, porque é preciso ter preparo para tarefas como pilotar o carro em qualquer situação e terreno, resolver as panes e trocar peças e pneus.

Mas isso nunca foi empecilho para ela. “Vou ser sincera, não sou a favor de mulheres que usam o fato de ser do sexo feminino para pedir passagem ou ajuda. Acho que se você entra em um rali, tem de se impor e ser igual”, afirma ela, que chegava a treinar troca de pneus em casa para se habituar com o procedimento.

O fato de ser mulher e estar presente no trânsito também é complicado até para quem usa veículos bem menores e mais discretos, que não dão margem para avaliações masculinas sobre o desempenho das motoristas nem precisam de vagas dominadas por flanelinhas. A jornalista Thaís Costa, que há dois anos se locomove pela cidade usando bicicleta, afirma que nesse caso o maior problema é o assédio, porque o veículo a deixa exposta aos olhares e comentários.

“Eu nunca sofri violência, mas o assédio acontece todas as vezes que ando de bike. É parar no sinal e o cara pedir o número do telefone, falar que é gostosa, assoviar”, diz ela. Para evitar o risco de assaltos, ela procura ficar sempre atenta, andando em ruas mais movimentadas, mas entende que não há muito o que fazer. “A violência está aí, você apenas se esquiva dela”.

Lidar com os desafios e procurar não estressar

Pode ser mais complicado, por ser mulher, enfrentar o trânsito ou uma competição automobilística, mas as entrevistadas por Auto Blog Ceará informam que não deixam o medo se impor nem aceitam o preconceito – apenas se cercam de mais cuidados para o primeiro problema ou abstraem o segundo. “Quando vou para a região do Centro Cultural Dragão do Mar, por exemplo, onde os flanelinhas são mais agressivos, procuro estar acompanhada”, afirma Danna. Carol procura se valer do mesmo recurso. “Quando saio, mesmo durante o dia, me sinto mais insegura. Por isso, dificilmente saio sozinha”, diz ela.

No universo das competições, Roberlena transforma todos os empecilhos em força para continuar e dá esse conselho para outras mulheres que gostam de competições. “Nunca pensei em desistir e sempre apoiei a mulherada, mas acho que você tem de ter na cabeça que, para andar nesse meio, é preciso fazer por merecer, se impor, não aceitar provocação, encarar desafios e fazer seu melhor. Esse mundo tem muito espaço para nós e podemos andar de igual para igual, é só acreditar”, finaliza.

Já Thaís recorre à música para não ser importunada pelo assédio cotidiano. E em casos extremos, reage. “Meu fone de ouvido é o melhor escudo, no volume máximo, de preferência. Mas já gritei revidando cantada, já dei cotoco, já fiz cara feia”. Ela também reparou que quando sai de vestido, o número de abordagens aumenta, mas isso não a faz desistir da opção. “Mulher pode, sim, andar de bicicleta com saia ou vestido sem ter de sofrer assédio”.

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