O futuro é só dos carros elétricos? Há quem discorde

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Está acontecendo o Salão de Pequim, atualmente o mais importante evento automobilístico do planeta. E de lá as novidades são, em sua maioria, sobre as novas tecnologias direcionadas a carros elétricos. Na China, onde as soluções são integradas, a população pode ter seus carros elétricos para andar na cidade e não precisam deles na estrada porque tem uma extensa rede de trens de altíssima velocidade para percorrer o país de ponta a ponta.

Mas será que essa alternativa funcionaria bem no Brasil, onde várias marcas do país asiático estão comercializando seus modelos elétricos? E em outras partes do mundo? Há quem questione esse pensamento de que o futuro da mobilidade passa, necessariamente, pelo fim dos motores a combustão.

Para Thiago Gaido, gerente regional da Corning Environmental Technologies (indústria de componentes para sistemas de controle de emissões de poluentes), “carros elétricos são um pilar importante, mas não resolvem o problema sozinhos”. Segundo ele, o futuro da mobilidade depende de de soluções como motores a combustão mais eficientes, uso de combustíveis mais limpos e melhorias na gestão da mobilidade.

E há muito a melhorar nesse quesito: atualmente, cerca de 60% a 70% da energia gerada em um motor a combustão convencional se perde na forma de calor. Por isso, além das motorizações híbridas, há indústrias desenvolvendo componentes que melhoram o aproveitamento no processo de queima de combustível.

Um exemplo: de acordo com a indústria de autopeças NGK, com a crescente demanda por redução de emissões de poluentes, “as bobinas de ignição têm evoluído significativamente, destacando-se o uso de bobinas individuais por cilindro e de alta energia, que proporcionam uma queima mais eficiente do combustível e melhor desempenho do motor”.

Diferentemente da forma mais tradicional, com uma só bobina alimentando todas as velas do motor, o sistema de bobina individual (ou COP – Coil-on-Plug) monta uma bobina diretamente sobre cada vela de ignição, eliminando cabos de vela. Isso gera centelhas mais fortes, melhora a queima de combustível e reduz perdas elétricas.

“Nesse contexto, ganha força a visão de que o futuro da mobilidade passa por uma abordagem integrada”, afirma Thiago Gaido. Ele afirma que além dos carros elétricos, entram no radar soluções como biocombustíveis avançados, eficiência energética, planejamento logístico e redução de deslocamentos desnecessários. Ou seja, a evolução não se limita ao sistema propulsor, mas a todo o complexo conjunto que faz pessoas e cargas percorrerem distâncias.

Na linha de biocombustíveis, além do já famoso biodiesel, destaque para a gasolina conhecida como e-Fuel, da Porsche, que é produzida a partir de hidrogênio e da captura do gás carbônico da atmosfera – o que a torna neutra em carbono, com as emissões dos carros sendo compensadas por essa captura. E falando em Porsche, a eletrificação tem sido um desafio para marcas tradicionais de supercarros, que ainda são muito associados a potentes motores a combustão.

Carros elétricos são desafio para marcas de super esportivos

Um aspecto a considerar é que existe um aspecto lúdico na compra de determinados modelos. Além da Porsche, marcas como Maserati, Ferrari e Lamborghini sobrevivem até hoje em torno dos carros equipados com motores míticos de ronco inconfundível. Filippo Vidal, sócio e diretor na FutureBrand, empresa especializada em gestão de marcas, afirma que o esforço de produção de carros elétricos não cresce de forma homogênea entre os segmentos automotivos.

“Quando olhamos para as marcas que ocupam o topo da pirâmide, como Ferrari, Lamborghini, Porsche, Aston Martin, McLaren, Bentley, o movimento (de eletrificação) não aconteceu com a mesma intensidade e, em alguns casos, até impactou significativamente os resultados financeiros”, lembra ele. Para o executivo, trata-se de uma questão ligada à gestão de identidade.

“Quando falamos de marcas super premium e de superesportivos, a eletrificação mexe com algo muito mais profundo do que o powertrain”, diz Fillipo. Ele argumenta, por exemplo, que em 2025 a Maserati cancelou oficialmente a versão elétrica do MC20 (MC20 Folgore), citando demanda insuficiente para o modelo 100% elétrico.

Para o executivo, marcas de supercarros não vendem apenas um meio de transporte. Fatores como exclusividade, dirigibilidade, sensação de “ter o carro na mão”, vibração do motor, som e até a autonomia (viajar grandes distâncias sabendo que vai encontrar postos com facilidade). “Um esportivo a combustão pode ser reabastecido em poucos minutos, permitindo longas jornadas sem planejamento prévio.

“Já os carros elétricos exigem infraestrutura, tempo de recarga e, quando conduzidos de forma mais intensa, podem demandar paradas frequentes, o que gera também maior exposição a situações de vulnerabilidade a ataques de criminosos, tema muito sensível para donos de carros superesportivos, principalmente em países como o Brasil”, conclui Fillipo.

Por fim, é bom lembrar que a geração da energia que vai abastecer os carros elétricos também ainda é um desafio dos nossos tempos. A própria China tem boa parte de sua matriz baseada no carvão, que é altamente poluente. É bem verdade que o país segue avançando na geração por energias renováveis, mas está no processo e tem um caminho considerável a percorrer.

Em resumo, tanto a indústria de motores a combustão quanto a de motores elétricos seguem evoluindo. O mais provável é que nosso futuro seja feito por estradas ocupadas por carros elétricos, híbridos e 100% a combustão, dirigidos por consumidores que escolheram o mais apropriado para suas condições de uso. No seu caso, caro leitor, avalie bem as alternativas e procure a mais adequada às suas necessidades.

 

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