Trilheiros: cearenses desbravam o estado de moto

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Para enfrentar a vegetação espinhosa e rasteira da caatinga, os vaqueiros nordestinos usam, há séculos, uma roupa de couro grosso para não rasgar e pele. Essa imagem virou um dos símbolos da nossa força para enfrentar a aridez. Com o passar do tempo, uma nova geração de desbravadores surgiu no sertão: são os trilheiros, motociclistas que aproveitam a agilidade dos veículos de duas rodas para andar pelos caminhos onde os carros não passam e que foram abertos por cavalos e jumentos ao longo dos anos. Todos os fins de semana, dezenas deles se aventuram pelo interior do Ceará, seja em passeios ou competições off road.

ITAPIPOCA 01Parte desse movimento pode ser acompanhado através do esforço do piloto Rodrigo Bernardo de Oliveira. Ele é um dos fundadores do Clube dos Trilheiros, que reúne amigos em torno da diversão comum, e mantém em uma página do Facebook a agenda de eventos dos participantes do esporte no Ceará. A animação, garante, é grande. “Os passeios chegam a reunir 200 pilotos. A população de trilhas está crescendo muito”, diz.  Nesses passeios maiores, segundo ele, a estrutura é proporcional ao número de participantes. “Definimos o trajeto, procuramos a prefeitura da cidade próxima e pedimos apoio dos órgãos oficiais”.

 

Um dos principais estímulos para o uso da moto nas trilhas é a agilidade para enfrentar qualquer terreno.  “Elas andam em lugares impressionantes”, afirma o engenheiro mecânico Josué Silva Varella. Praticante do motociclismo de trilhas há mais de 20 anos, ele tem muito para contar sobre o interior e o litoral do Ceará. Além de participar de grande eventos com outros trilheiros, Josué gosta de pegar o veículo e fazer viagens com amigos motociclistas.

SOBRAL OFF ROAD 03“Já fui de Fortaleza a Juazeiro do Norte sem pegar nenhuma estrada, só por trilha”, afirma ele. Vale destacar que a distância que separa as duas cidades chega a quase 500 km. Josué relata algumas das experiências que suas aventuras sobre duas rodas proporcionaram: “encontrei senzala com objetos de escravos e muitas casas de farinha (antigas instalações que existiam em muitas fazendas, onde se moía a mandioca)”. Outro trajeto interessante descrito por ele é uma trilha onde as motos andam por 8 km em um terreno só com bananeiras.

 

Retornando à analogia com métodos antigos dos sertanejos para enfrentar os terrenos áridos do sertão, os motoqueiros usam um traje que remete à roupa que protegia os vaqueiros da caatinga cearense. Além do obrigatório capacete, ele é composto por botas de cano longo e com chapa de ferro na parte frontal, joelheira e cotoveleira articuladas e colete com proteção dorsal.

Além da capacidade de andar em praticamente todos os terrenos, a motocicleta off road tem outra vantagem sobre os carros: o custo relativamente baixo. Segundo Josué, um veículo novo custa aproximadamente 13.500,00 reais, mas é possível comprar um usado por cerca de R$ 8 mil. Já o equipamento de proteção completo sai por R$ 1.800,00. Isso significa que mesmo o gasto total máximo, de R$ 15.300,00, sai por um terço do que seria gasto para comprar um veículo off road de quatro rodas – entre os mais baratos disponíveis.

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E ainda é possível gastar menos, caso o objetivo seja fazer trilhas mais “light”. O irmão de Josué, Jair Varella, também é adepto do esporte mas, como percorre caminhos menos áridos e em velocidades menores, conseguiu comprar uma moto usado e prepara-la para os trechos off road com apenas R$ 4 mil. Essa preparação consiste em colocar pneus adaptados para terrenos não pavimentados, mudar a relação do kit formado por corrente, coroa e pinhão (peças responsáveis pela tração) e trocar guidão e descarga. As motos mais procuradas pelos trilheiros, de acordo com os entrevistados, são a CRF 230 e XR 200, da Honda, e a TTR 230, da Yamaha.

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Para quem se interessou por esse esporte divertido e relativamente barato, vale ressaltar que é preciso tomar algumas precauções. Jair alerta que é preciso começar aos poucos, formando um grupo onde pelo menos um membro já conheça os caminhos. “Se ninguém tiver experiência é perigoso, porque você passa muito perto de tocos e galhos”, explica. Além disso, é preciso saber dosar bem a velocidade, sob pena de não conseguir dominar a moto. “Na areia fofa, por exemplo, você não pode andar a 30 km por hora. Tem de andar com 60 km/h para a frente, senão a moto afunda na areia”, explica ele. Algumas vezes, os tombos são inevitáveis, mas não são graves (veja vídeos das trilhas a seguir). Por fim, como a moto não tem porta-malas, é importante levar uma mochila com mantimentos e ferramentas.

Com os devidos cuidados, o resto é só diversão sadia. Se na cidade a motocicleta é vista como um veículo perigoso, por causa da disputa de espaço com carros, caminhões e ônibus, no ambiente off road ela não se mostra tão amedrontadora. “A motocicleta de trilha é muito segura. Nunca houve uma fatalidade em todos esses anos que eu tenho andado”, garante Josué.

Para quem quiser acompanhar a movimentação do motociclismo off road no Ceará, o endereço do Clube dos Trilheiros no Facebook é www.facebook.com/clubedostrilheirosce. No site é possível ver a agenda de passeios e competições. E, quem sabe, a partir daí criar coragem para fazer parte do grupo de aventureiros.

 

 

 

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