Nas estradas do Ceará: passamos um dia com motociclistas do asfalto

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Há poucos dias, contamos aqui a história dos trilheiros, motociclistas que desbravam o sertão e o litoral do Ceará em veículos adaptados para rodar em praticamente todos os terrenos. Dessa vez, tivemos oportunidade de conhecer outro grupo de adeptos da vida sobre duas rodas, mas que são “bichos do asfalto” e andam pelas estradas cearenses em veículos com muitas cilindradas e design chamativo com suas linhas clássicas repletas de peças cromadas. E conhecer, nesse caso, tem conotação literal: passamos um dia acompanhando os estradeiros em um passeio ao Maciço de Baturité, que incluiu as cidades de Pacoti, Guaramiranga e Baturité.

Passeio4Reunindo um total de 29 motos, quase todas levando duas pessoas, o passeio, pelo que pudemos comprovar convivendo com os motociclistas, pode ser resumido como uma grande festa, cujo único objetivo é reunir pessoas de diferentes profissões e atividades em torno de dois objetos comuns: a paixão por motocicletas e a vontade de se ver, fugir da correria cotidiana e jogar conversa fora com amigos.

Entre as atividades, foi incluída a visita a uma pequena escola de um distrito de Pacoti, na qual os motociclistas se juntaram a um grupo de pessoas para doar brinquedos, doces e animar uma festa feita para os alunos. Para além da ação beneficente, eles garantiram a diversão das crianças com o impacto do ronco dos motores na chegada das motos e o visual dos casacos de couro preto.

O passeio ao Maciço de Baturité foi organizado através de um grupo de WhatsApp chamado Novos Amigos da Estrada, criado para estimular motociclistas com veículos de baixa cilindrada a “sair de Fortaleza, aproveitar a vida em viagens sobre duas rodas e renovar amizades no calor da estrada”, segundo um de seus integrantes. A atividade contou com a presença de membros dos motoclubes Guerreiros do Rock e Águias de Cristo e do motogrupo Jovem Guarda. Infelizmente não os acompanhamos de moto, porque nossa paixão por veículos sempre pendeu mais para os carros e não desenvolvemos a habilidade para guiar no universo de duas rodas. Mas é impossível não se contagiar.

Para começar, mesmo no calor cearense, os motociclistas andam de casacos de couro preto. Isso é possível porque o contato constante com o vento ameniza a temperatura e impede que eles torrem no nosso sol inclemente. O resultado visual é difícil de descrever em um simples texto, mas basta dizer que não há como não perceber e não se impressionar com a passagem do grupo.

Além disso, a maioria das motos tem, no mínimo 250 cilindradas. Algumas delas chegam a mais de 900 – para se ter ideia, essas têm motores com praticamente o mesmo volume do que equipa um carro 1.0. O design delas, como dissemos, também é um show à parte, com muitos cromados e bancos e revestimento do tanque de combustível salientes, entre outros atrativos visuais. Segundo Paulo Eduardo Melo, presidente do motoclube Guerreiros do Rock, grupo que tinha o maior número de integrantes no passeio (veja depoimento em vídeo sobre o clube), as motos mais potentes, acima de 250 cilindradas, não são obrigatórias para a maioria dos clubes, mas geralmente são as mais frequentes.

Vale ressaltar que o hobby do motociclismo de estrada não é algo inacessível. “Uma Honda Shadow de 600 cilindradas custa em torno de R$ 14 mil. Mas uma moto 250 razoável usada fica entre 6 e 7 mil”, explica Paulo. Os passeios, pelo que pudemos comprovar, também são bastante democráticos. Os locais de parada são simples, com refeições de preços acessíveis e ninguém pareceu demonstrar qualquer restrição com os ambientes.

O clima nessas comunidades, como dissemos, é contagiante. Tanto que o contato com os integrantes pode fazer automobilistas céticos mudarem radicalmente de opinião. “Eu sempre dizia que nunca haveria possibilidade de trocar o carro pela moto”, afirma Sérgio Medeiros, um dos mais novos membros do motoclube Guerreiros do Rock, reforçando sua mudança de postura em cima de uma moto, vestindo blusão de couro e acompanhado pela esposa na garupa. Ele conta que hoje deixou a paixão falar mais alto e anda de moto inclusive por Fortaleza destacando que além de divertido, o veículo dá bem menos despesa que o carro.

Pela experiência que tivemos, ficou a vontade de experimentar um novo passeio, dessa vez guiando um veículo de duas rodas. A paixão pelos carros, como dissemos, nos acompanha desde sempre, mas o ronco do motor de uma moto também soa como música aos nossos ouvidos. Aguardemos cenas dos próximos capítulos.

Passeio1Como uma irmandade
Diretor do motoclube Guerreiros do Rock, o motociclista Gonzaga Leite era um dos responsáveis pela organização do passeio. E a tarefa, pelo que observamos, não é fácil. Durante o passeio, pneus de motos furaram, outras tiveram problemas mecânicos, a esposa de um dos participantes passou mal e, como o grupo era muito grande, aconteceram alguns inevitáveis desencontros e erros de trajeto. Nada disso, no entanto, pareceu tirar do motociclista a disposição de ajudar. O clima geral de solidariedade é uma característica que chama a atenção: eles se tratam, inclusive, pelo termo “irmão”.

Vale ressaltar que essa cumplicidade vem de um processo de conquista da confiança. No motoclube Guerreiros do Rock, por exemplo, para se tornar um membro é preciso ser convidado por alguém que já está dentro do clube. Um dos primeiros passos é frequentar as reuniões de motociclistas que acontecem todas as quintas-feiras na praça em frente à Igreja de Fátima e sobre a qual já falamos aqui em Auto Blog Ceará. “A pessoa passa, então, a participar das atividades. Para ser aceito e se tornar um membro efetivo, pode levar meses ou mais de um ano”, afirma Gonzaga. Mesmo não sendo membro de um clube, no entanto, pelo tratamento que vimos entre os integrantes do passeio que acompanhamos, apaixonados por motos e pela estrada encontram em outros motociclistas praticamente uma segunda família.

 

 

 

 

 

 

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