Por Marcelo Martini
Em 2026 a indústria automotiva brasileira completa 70 anos de existência. A história dessa indústria, habitualmente, é contada do ponto de vista dos carros que chegaram às ruas, das montadoras que se instalaram no país ou das tecnologias que transformaram os motores. No entanto, o desenvolvimento desse setor está diretamente relacionado à evolução dos lubrificantes automotivos, fator fundamental para assegurar desempenho, eficiência e durabilidade aos veículos produzidos nacionalmente.
Em 1956 a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) ofereceu as condições iniciais para o estabelecimento desse segmento no país, a partir de metas de nacionalização que ajudaram a estruturar uma cadeia produtiva local. Na época, os carros que chegavam às linhas de produção brasileiras eram muito diferentes dos automóveis de hoje e, paralelamente, o mesmo pode ser dito sobre os lubrificantes usados nos veículos daquele período. A função deles estava essencialmente relacionada à proteção dos componentes mecânicos dos carros.
Porém, a evolução dos motores contribuiu para aumentar as exigências sobre os fluidos automotivos no que se refere a fatores como maior controle de temperatura, redução de atrito, proteção contra desgaste, estabilidade em condições mais severas e contribuição para a eficiência do conjunto. Um levantamento da Mordor Intelligence (empresa que faz análises de mercado) aponta a importância desses produtos: atualmente, o Brasil é o maior consumidor de lubrificantes acabados da América do Sul, com projeção de movimentar 1,5 bilhão de litros em 2026.
Evolução inicial dos lubrificantes automotivos
Nos primórdios da indústria automotiva brasileira, motores, materiais e processos de fabricação eram menos sofisticados do que os atuais. Nesse sentido, reduzir o atrito entre componentes, controlar o desgaste e proteger as peças contra corrosão eram as principais funções desempenhadas pelos lubrificantes automotivos. Foi nesta fase que grandes montadoras internacionais começaram a estabelecer suas produções no país e ampliar a demanda por esse tipo de produto.
Em 1960 a frota circulante brasileira já estava na casa das 310 mil unidades, de acordo com a Nota Técnica nº 41/2013/CPT/DF da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com o passar dos anos, o progresso técnico da indústria direcionou o setor a produzir motores que operavam com maior potência, temperaturas mais elevadas e componentes desenvolvidos para entregar mais desempenho em sistemas cada vez mais compactos.
O ano de 1970, que desencadeou uma década de massificação da produção automotiva no país, também foi marcado pelo início da regulamentação dos lubrificantes acabados pelo órgão competente do setor de petróleo. A primeira legislação específica foi a Resolução CNP nº 8, que estabeleceu, entre outras medidas, o registro prévio dos produtos e a apresentação de suas especificações físico-químicas.
No período houve um aumento na escala de produção de automóveis de passeio e no número de oficinas independentes, postos de serviço, lojas de autopeças, redes de distribuição e peças e produtos disponíveis no mercado de reposição. Foi nesse momento que o óleo lubrificante se transformou em um produto de consumo recorrente associado à posse do veículo.
O fator do controle de emissões
Já a década de 1980 se destacou pela transição para uma fase em que eficiência, desempenho e emissões foram os fatores determinantes para o desenvolvimento dos veículos. Isso exigiu, consequentemente, que o papel dos lubrificantes automotivos evoluísse para um importante componente de engenharia do motor.
Uma das medidas que contribuíram para isso foi a criação do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), em 1986. Ele buscou promover o desenvolvimento tecnológico da indústria automobilística nacional, melhorar os métodos de ensaio, medição e as características dos combustíveis utilizados pela frota, ampliando, também, as exigências sobre os demais componentes e fluidos automotivos.
Neste contexto de evolução dos motores, os aditivos ganharam espaço nas formulações de lubrificantes, por potencializarem características como controle de oxidação, detergência e dispersão, proteção contra desgaste, controle de depósitos e estabilidade em diferentes condições de operação.
A partir de 1990 o processo de reestruturação econômica do Brasil promoveu um aumento expressivo nas importações. O consumidor brasileiro passou a ter contato com uma diversidade muito maior de tecnologias, o que impactou diretamente a cadeia de autopeças do país e, por consequência, o mercado de lubrificantes automotivos.
Essa nova dinâmica pressionou o setor a incorporar padrões internacionais de preço e qualidade, o que culminou, em 1999, na publicação da Portaria nº 131 pela ANP, tornando obrigatório o registro de óleos lubrificantes, graxas e determinados aditivos destinados à aplicação automotiva comercializados no Brasil. Na prática, a medida estabeleceu, pela primeira vez, níveis mínimos de desempenho para os lubrificantes comercializados no país.
Boom automotivo dos anos 2000
A virada do milênio trouxe uma nova realidade para a indústria automotiva no Brasil. Uma população com melhor poder aquisitivo teve acesso a uma ampla frota de veículos de diferentes origens, datas de criação, sistemas de alimentação e tecnologias de transmissão, entre outras especificações das montadoras.
Diante deste cenário, no que diz respeito aos lubrificantes automotivos um único produto já não era mais capaz de atender adequadamente toda a frota. Isso exigiu das empresas do setor um trabalho cada vez mais focado em especificações relacionadas ao tipo de motor, combustível, viscosidade, nível de desempenho, aplicação, recomendação da montadora e condições de operação.
Este movimento veio acompanhado da Resolução nº 10/2007 da ANP, que elevou os níveis mínimos de desempenho estabelecidos anteriormente pela Portaria nº 131/1999 e estabeleceu os critérios para registro dos lubrificantes automotivos acabados e as obrigações para produtores, importadores e terceirizadores.
A partir dos anos 2010, o avanço da agenda ESG (plano de ação para empresas colocarem em prática critérios de sustentabilidade) e o endurecimento dos limites de emissão promovido pelo Proconve alteraram a prioridade da indústria. O foco ficou mais direcionado para motores menores e mais eficientes, turboalimentação, sistemas de pós-tratamento de emissões, intervalos de manutenção diferentes e busca por redução do consumo de combustível. Esses fatores passaram a exigir formulações específicas dos fluidos automotivos.
Por essa razão, características como viscosidade, estabilidade térmica, controle de depósitos, compatibilidade com sistemas de pós-tratamento e economia de combustível assumiram uma posição de destaque para o mercado de lubrificantes automotivos, de modo que as formulações foram cada vez mais desenvolvidas em função da arquitetura e dos requisitos específicos do motor.
Eletrificação e futuro da indústria e dos lubrificantes automotivos
Desde 2020 o Brasil vivencia uma realidade contraditória em relação aos automóveis. Enquanto transição energética e eletrificação dos veículos vêm sendo tratados como prioridade para a indústria, a idade média da frota circulante em 2023 se aproximava dos 11 anos, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). Isso significa que uma grande parcela dos carros ainda necessitará dos processos tradicionais de manutenção, reposição de óleo e outros fluidos por muitos anos.
Porém, o aumento no número de veículos eletrificados nas ruas promove o surgimento de novos pontos críticos de lubrificação e gerenciamento térmico. Dessa maneira, o setor precisa continuar aperfeiçoando os óleos destinados aos motores de combustão, mas simultaneamente desenvolver fluidos para os novos componentes elétricos e sistemas de transmissão que serão utilizados daqui para frente.
Ao longo de 70 anos, o mercado brasileiro de lubrificantes automotivos acompanhou a expansão da frota, a sofisticação dos motores e o endurecimento das exigências de eficiência e emissões, ajudando a viabilizar estes movimentos, o que contribuiu para torná-los parte essencial da evolução do automóvel.
Em resumo, a relevância deste produto, historicamente, não está relacionada a uma determinada tecnologia de motor, mas à capacidade de responder aos novos desafios da mobilidade. É exatamente essa característica que deve continuar fazendo do lubrificante uma ferramenta essencial da indústria automotiva brasileira nas próximas décadas.
Marcelo Martini é gerente de vendas do aftermarket da Fuchs, fabricante independente de lubrificantes e produtos relacionados
Leia mais artigos em https://autoblog85.com/categoria/artigos/


