Para enfrentar a vegetação espinhosa e rasteira da caatinga, os vaqueiros nordestinos usam, há séculos, uma roupa de couro grosso para não rasgar e pele. Essa imagem virou um dos símbolos da nossa força para enfrentar a aridez. Com o passar do tempo, uma nova geração de desbravadores surgiu no sertão: são os trilheiros, motociclistas que aproveitam a agilidade dos veículos de duas rodas para andar pelos caminhos onde os carros não passam e que foram abertos por cavalos e jumentos ao longo dos anos. Todos os fins de semana, dezenas deles se aventuram pelo interior do Ceará, seja em passeios ou competições off road.

Um dos principais estímulos para o uso da moto nas trilhas é a agilidade para enfrentar qualquer terreno. “Elas andam em lugares impressionantes”, afirma o engenheiro mecânico Josué Silva Varella. Praticante do motociclismo de trilhas há mais de 20 anos, ele tem muito para contar sobre o interior e o litoral do Ceará. Além de participar de grande eventos com outros trilheiros, Josué gosta de pegar o veículo e fazer viagens com amigos motociclistas.

Retornando à analogia com métodos antigos dos sertanejos para enfrentar os terrenos áridos do sertão, os motoqueiros usam um traje que remete à roupa que protegia os vaqueiros da caatinga cearense. Além do obrigatório capacete, ele é composto por botas de cano longo e com chapa de ferro na parte frontal, joelheira e cotoveleira articuladas e colete com proteção dorsal.
Além da capacidade de andar em praticamente todos os terrenos, a motocicleta off road tem outra vantagem sobre os carros: o custo relativamente baixo. Segundo Josué, um veículo novo custa aproximadamente 13.500,00 reais, mas é possível comprar um usado por cerca de R$ 8 mil. Já o equipamento de proteção completo sai por R$ 1.800,00. Isso significa que mesmo o gasto total máximo, de R$ 15.300,00, sai por um terço do que seria gasto para comprar um veículo off road de quatro rodas – entre os mais baratos disponíveis.
E ainda é possível gastar menos, caso o objetivo seja fazer trilhas mais “light”. O irmão de Josué, Jair Varella, também é adepto do esporte mas, como percorre caminhos menos áridos e em velocidades menores, conseguiu comprar uma moto usado e prepara-la para os trechos off road com apenas R$ 4 mil. Essa preparação consiste em colocar pneus adaptados para terrenos não pavimentados, mudar a relação do kit formado por corrente, coroa e pinhão (peças responsáveis pela tração) e trocar guidão e descarga. As motos mais procuradas pelos trilheiros, de acordo com os entrevistados, são a CRF 230 e XR 200, da Honda, e a TTR 230, da Yamaha.
Para quem se interessou por esse esporte divertido e relativamente barato, vale ressaltar que é preciso tomar algumas precauções. Jair alerta que é preciso começar aos poucos, formando um grupo onde pelo menos um membro já conheça os caminhos. “Se ninguém tiver experiência é perigoso, porque você passa muito perto de tocos e galhos”, explica. Além disso, é preciso saber dosar bem a velocidade, sob pena de não conseguir dominar a moto. “Na areia fofa, por exemplo, você não pode andar a 30 km por hora. Tem de andar com 60 km/h para a frente, senão a moto afunda na areia”, explica ele. Algumas vezes, os tombos são inevitáveis, mas não são graves (veja vídeos das trilhas a seguir). Por fim, como a moto não tem porta-malas, é importante levar uma mochila com mantimentos e ferramentas.
Com os devidos cuidados, o resto é só diversão sadia. Se na cidade a motocicleta é vista como um veículo perigoso, por causa da disputa de espaço com carros, caminhões e ônibus, no ambiente off road ela não se mostra tão amedrontadora. “A motocicleta de trilha é muito segura. Nunca houve uma fatalidade em todos esses anos que eu tenho andado”, garante Josué.
Para quem quiser acompanhar a movimentação do motociclismo off road no Ceará, o endereço do Clube dos Trilheiros no Facebook é www.facebook.com/clubedostrilheirosce. No site é possível ver a agenda de passeios e competições. E, quem sabe, a partir daí criar coragem para fazer parte do grupo de aventureiros.





